Por: Lucia Deborah

Se o futuro, visto de um passado recente, parecia anunciar um tempo de pouca linguagem escrita e de pouca leitura, a previsão não se confirmou. Não falo das estatísticas sobre o quantitativo do público leitor, medido a partir das aquisições em livrarias e das assinaturas de jornais e revistas; falo dessa leitura e dessa escrita que se desenvolvem em espaço não acadêmico e não literário e que não correspondem a exercício de erudição.

As redes sociais viabilizaram um espaço de lecto-escrita nunca antes vislumbrado, quer em termos de velocidade de divulgação, quer pelo volume e pela constância. O próprio 500 palavras é exemplo de uma deriva prevista para a internet (os blogs foram, já no início da internet acessível e ágil, uma grande aposta dos analistas; o que mudou foi a forma de fazer, no que, modéstia à parte, estamos inovando). O que não estava previsto era que os espaços de exercício textual mais pessoais e subjetivos, antes explorados via ICQ, MSN e bate-papos, fossem ganhar as avenidas binárias da web e fazer de todos nós pessoas públicas. Contudo, não é o grau de exposição individual o meu foco aqui, mas o poder da linguagem e do discurso nesse contexto. Cada palavra tem seu peso. Dito de forma impensada, um simples vocábulo pode causar muitos danos, com o agravante de estar no espaço tecnicamente inapagável da internet (o que foi feito daquela generosa fita branca dos tempos de datilografia, que nos redimia dos erros e nos reconduzia ao caminho da retidão?). Dita irresponsavelmente, uma palavra pode produzir falsas realidades. Lida por olhos crédulos e pouco afeitos à verificação científica, reverbera verdades ou “verdades”, em cada situação com um efeito.

Em tempos de campanha política acirrada (como, de resto, tem sido este ano, não tanto pelo período eleitoral, mas por todas as campanhas em curso na sociedade brasileira), as palavras ganham muito poder e passam a exigir um manejo que deve combinar as melhores características da abordagem técnica e do artesanato. Também o leitor precisa de lentes, para ver além da superfície vocabular, penetrando as malhas discursivas. Lá, na microtextura, encontram-se as intenções, as ideologias, quiçá as verdades (se é que não são entidades apenas conceituais). Para ler e escrever melhor, precisamos de uma outra alfabetização, que dê conta, sobretudo, da ânsia – de admissão imediata, de revide, de enunciação filosófica. Ansiosos, somos pouco produtivos e publicamos ideias indelevelmente, ainda que haja mecanismos judiciais para envidar o apagamento de alguns assuntos na internet, em casos muito específicos. Os discursos ficam lá, passíveis de toda crítica, de todo aplauso, de todo processo. Também assumimos como verdade o que é mera casualidade.

Literatura é uma palavra que nos remete, etimologicamente, à dureza e à durabilidade de uma letra gravada no meio físico. O meio já não é o mesmo, mas a durabilidade das produções na internet promete mais do que as pinturas rupestres conseguiram, para o bem e para o mal. Por isso, entre o pensar e o digitar, entre o ler e o compartilhar, há que se realizar uma respiração. Talvez a verdade more aí.

assinatura-lucia

Anúncios