Por: Lucia Deborah

Dizem que o verdadeiro talento não conhece tempo ou lugar – espalha-se pelo mundo e dele se assenhora, sem se deixar reter. O Brasil é terra pródiga de talentos em diversas áreas e, embora não tenhamos um prêmio Nobel de Literatura, não são poucos os nomes nacionais que poderiam carregar a honraria dignamente. Permitam-me levantar um deles: Manuel Bandeira. Preparem-se para um texto rasgadamente apaixonado, nada isento. Bandeira, para mim, é assim: uma relação de libertinagem poética e de carnaval linguístico.

Como falar de um homem que nasceu no século XIX, encantou o século XX (desobedecendo ao vaticínio que determinava sua morte precoce) e cuja palavra reverbera fortemente no século XXI? Como falar de um homem que soube, como ninguém, produzir a síntese modernista entre a intelectualidade e a expressão popular? Intrigou-me verificar como falam dele e eis que encontro, num site: Manuel Bandeira, poeta brasileiro. Tão simples e tão profundo! Essa era exatamente a sua essência – ser poeta e ser brasileiro.

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Apesar de dominar outros idiomas com mão de tradutor exímio, Bandeira transpirava o Brasil e sua língua. São as cores brasileiras que encontramos em seus poemas, mas não se iluda o leitor: sob a genética tupiniquim, há todo um universo que dialoga com o humano, rompendo espaços. Assim é que, mesmo com todas as referências aos elementos locais nos poemas em que evoca o Recife de seu afeto e memória, as cheias (assim chamam-se as enchentes em Pernambuco) e tudo que elas arrastam, de móveis a um boi morto, a rua da Aurora, mesmo com todas essas referências, encontramos ali uma representação universal: o humano saudoso da infância, que estende suas raízes à terra de sua origem, mas esgalha os braços em direção ao infinito. A palavra em sua mão é como a argila nas mãos de Mestre Vitalino[1], deixando-se dobrar, inventando-se em formas inusitadas, mas sendo terra, tendo cor de terra e cheirando a terra, a mesma terra seca que enterrou tantos sonhos.

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Nem sempre foi colorida a produção do poeta: partindo da Cinza das Horas, encontramos um escritor que vai viver o paradoxo de ser imortal, como poeta, e de sentir a ronda da morte, como doente de tuberculose. Entre as polaridades, sua poética vai pulsando, ora com medo e vontade de partir de vez pra Pasárgada, ora com ácido sarcasmo diante da morte (Alô, iniludível!), e se derrama por uma série de livros. Nestes, o casamento da linguagem popular com a poesia e o diálogo entre cultura popular e referências universais não eram itens de um projeto, mas representavam uma prática poética.

Bandeira compõe a vida em versos simples, capazes de traduzir “a ternura mais profunda e mais cotidiana”. Que mulher não desejaria ser sua teadorada lagarta listrada?  Banhada no mar do Rio de Janeiro, sua palavra se ondulou em carícias verbais, plenas de sensualidade, sem qualquer vestígio de vulgaridade (Teus duros mamilos! Teu dorso! Teus flancos! Ah, tuas espáduas!). O poeta, no entanto, tendo aprendido desde cedo que o corpo se vai, buscava encontro mais profundo, na nudez da alma (“Baixo até o mais fundo/De teu ser, lá onde/Me sorri tu’alma/Nua, nua, nua…”[2]). Ah, vida, dura vida…mostraria ao poeta que “os corpos se entendem, mas as almas não”. Beco? Não para ele.

Assim como Mozart, Manuel Bandeira saltita verbalmente na pauta suplementar superior, para ingressar no não tempo, no não lugar da poesia pura. Imagino Bandeira no céu: Licença, São Pedro? E São Pedro bonachão: Entra, Manuel, você não precisa pedir licença.

Links e Referências:

[1] Mestre Vitalino foi um artista popular pernambucano, que se notabilizou por seus bonecos feitos em argila. Para conhecer mais sobre ele, sugiro a leitura do primoroso texto de Elfi Kürten, no blog “Templo Cultural Delfos”, em https://goo.gl/7CFF89

[2] BANDEIRA, M. Estrela da Tarde, 1960.

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