HISTÓRIA

Por: Andre Sena

Nestes dias tão pesados que nosso país atravessa decidi assistir um desenho animado qualquer. Escolhi “Moana – Um mar de aventuras”, produção recente da Disney, muito em função do que amigos a alunos falavam acerca da beleza do desenho. Vi, amei e é claro a síndrome do historiador bateu; fui em busca de informações sobre o em-torno da trama dessa heroína em busca da reconquista da estima e autodeterminação do seu povo.

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Como não poderia deixar de ser uma porta imensa de informações sobre um mundo já conquistado, pisoteado por grande potências neo-coloniais e imperialismos de toda sorte apareceram diante mim.

Mesmo assim, a atmosfera topográfica e cultural onde a epopeia de Moana é localizada nos parece ainda, mesmo depois de tantas intervenções, indescritível (no sentido do maravilhoso!). Uma espécie de outro-lado, outro-mundo, fim-do-mundo, ou qualquer dessas construções simbólicas arrogantes que usamos para definir o mais imediatamente possível, o quê ou quem desconhecemos.

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A Polinésia Francesa é o microcosmo onde eu e Fábio mergulhamos quando assistimos juntinhos, pipoca e guaraná em punho, o desenho em uma dessas noites cariocas onde sair é perigoso e a casa é o lugar mais seguro (quase sempre?).

Quando pensamos na Polinésia Francesa é preciso que tomemos um impulso mais impetuoso, afim de nos darmos conta de todo um subsistema internacional de ilhas maiores e menores que formam a Micronésia, a Melanésia e a Polinésia, localizado no Pacífico Sul. Os primeiros contatos com o ocidente europeu se deram no século XVI e seria impossível aqui nomear todos os territórios, países ou protetorados que lá existem. O que não nos impede de citar o Havaí (há controvérsias acerca de seu pertencimento automático à região) e o Tahiti, Fiji, Samoa, Moorea e Bora-Bora.

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O azul predominante na animação da Disney tem muito pouco de ficccional, já que basta olharmos fotos e vídeos da região para nos perguntarmos quem imita quem: o desenho copia a realidade, ou o contrário?

Um dos aspectos mais curiosos e divertidos de “Moana – Um Mar de Aventuras” é o personagem Maui, espécie de semi-deus exilado que corresponde a um somatório de personagens mitológicos de várias daquelas ilhas, incluindo as ilhas havaianas. Definitivamente essas ilhas do Pacífico compartilham uma poderosa herança comum que data de 1500 a.C, a qual o desenho nos dá algum acesso.

Outro personagem excepcional (me arriscaria a dizer que rouba varias cenas) é a onda animada, que poderíamos definir como um tipo de Sancho-Pansa polinésio já que Moana é o tempo inteiro por ela assistida e muitas vezes orientada.  Não se trata de uma ficção in totum, já que o criador da animação se inspirou em um fenômeno típico de algumas praias da Polinésia onde geiseres projetam cilindricamente ondas em movimentos quase controlados pela própria natureza.

Nos aproximemos agora ao personagem principal: nossa querida princesa Moana Waialiki. Estudiosos apontam que o desenho na verdade projeta a existência histórica de grandes líderes femininos da civilização polinésia, especialmente das ilhas de Togatapu e Tutuila.

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Curiosamente a região tem uma intensa atividade em termos de política internacional, especialmente na esfera regional, oscilando entre relações mais diretas com a Nova Zelândia, Austrália e China. A Universidade Rarotonga e Suva do Pacífico Sul vem publicando estudos sobre as relações internacionais na região desde os anos 1990 e hoje já podemos considerar a Polinésia como um campo interessante de estudos em termos de investigações acadêmicas  em política internacional.

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Entre países independentes, semi independentes e ilhas que ainda se encontram em estatuto colonial, podemos descobrir muito sobre essa parte do planeta em termos de história política e cultural. Moana me despertou esse interesse, pois o desenho aponta-nos o detalhe da antiguidade histórica (e também mítica) daquelas ilhas e de como a longa duração ainda pode nos mostrar ali o jogo entre descontinuidades recentes e a força das permanências.

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Nada mais encantador para quem ama história como eu. Como nós. E como a sabedoria das ilhas no pacífico nos sugere, há muito por detrás daqueles mares, ou melhor: Mohala i ka wai ka maka o ka pua (por baixo das ondas muitas flores podem ser reveladas.)

 

Para saber mais:

Para meus alunos de História e Relações Internacionais, ou para aqueles que amam uma abordagem mais antropológica eu sugiro a revista The Journal of the Polynesian Society, abrigado pela Universidade de Auckland. Ali você poderá encontrar muitas informações históricas e culturais sobre a região.

https://goo.gl/7bNef9

Para quem se interessa pelos bastidores do filme Moana – Um Mar de Aventuras, aqui temos 15 dicas sobre o filme. (em inglês.)

https://goo.gl/RgeUcw

Aqui vc pode curtir um video bem curtinho sobre a cultura do Triângulo Polinésio. Está em espanhol mas é muito compreensível.

 

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