Por: Lucia Deborah

As mulheres do século XIX tinham voz? Curioso pensar sobre isso, já que tantos nomes masculinos encheram sempre nossos cadernos e livros, contando a história com suas vozes graves e cheias de razão e verdade. No fundo da cena, muitas vezes no fundo da casa, a mulher:

“Intimidada, diminuída. Incompreendida.
(…)E o medo de falar…
E a certeza de estar sempre errando…
Aprender a ficar calada.(…)”
[1]

Ser mulher e estar nos rincões do interior do país, num Goiás que era tão, tão distante de tudo, representava enfrentar fosso duplo entre a potência de ser e a expressão. Expressar… assumir, enfim, que havia um universo gritante num ser que não devia ser mais que útero, sem o menor sinal de voz. Esse era o desafio de tantas marias, joaquinas, anas. Esse era o desafio da Ana que se renomeou Cora Coralina[2], ignorou as poucas letras que a escola lhe deu e foi buscar todas, porque havia em si tanta poesia, tanta palavra a dizer, que já não tinha como calar. Ana pariu, cuidou, sofreu, mas Cora falou por ela e por tantas mulheres.

A doceira da palavra soube muito bem recriar sua vida pela poesia. Teve útero, coração e cérebro. Não foi rósea nas palavras – a dor ali se aninhava –, mas buscou sempre ser mulher. Não aceitava ser simulacro de homem; queria o feminino, parindo filhos-gente e palavras-filhas, sem se amesquinhar: “Nasci em tempos rudes./Aceitei contradições,/Lutas e pedras/Como lições de vida/E delas me sirvo./Aprendi a viver”.[3]

Cora Coralina[312]

Com construções simples, diretas, fez de sua poesia espaço de compartilhamento de sabedoria, mais que de saberes. Não foi fácil, tudo conspirava a favor do silêncio. É verdade: foi a palavra de um poeta homem que a tornou tardiamente conhecida e chancelou sua qualidade[4]… fazer o quê? As pedras estão pelo caminho, bem no meio dele, mas, uma vez reunidas e colocadas de lado, podem ser proteção das roseiras plantadas para serem colhidas por mãos do futuro.

Aninha e suas pedras
Não te deixes destruir…
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.(…)

É certo que em cada mulher moram muitas mulheres. Como as bonecas matryoshkas[5], que são várias em uma, há sempre uma palavra empoeirada, uma palavra-tradição que teima em existir, rejeitando algumas invenções. Pra quem sentiu falta (e muita) do aconchego no coração materno, natural que o valor dado aos afetos familiares se projetasse fortemente (Cria teus filhos,/Não os entregues à creche./[…]Ele, pequenino, precisa de ti./Não o desligues de tua força maternal). E mesmo o trecho em que questiona plataformas feministas (”Que pretendes, mulher?/Independência, igualdade de condições…/Empregos fora do lar?/És superior àqueles/que procuras imitar.”) não deve ser apressadamente visto como um esvaziamento do discurso que confere poder à mulher, mas considerado como o convite possível,  feito num cenário de final de século XIX, início do XX, para ser nova, sendo fiel a si mesma. No mesmo poema, fala, imperativa: “Mulher, não te deixes castrar”[6]. Que se reconheça, em meio às vozes ancestrais, seu clamor pela identidade feminina e pelo poder de escolher ser o que se é, sendo mulher, qualquer mulher, de casa ou “da vida” – para ela, eram todas irmãs: “Mulher da zona,/Mulher da rua,/Mulher perdida,/Mulher à toa./Mulher da vida/Minha irmã.”[7] Ser mulher é ser desdobrável, Adélia Prado diria.

firstMatrioshka[314]

A voz de Cora Coralina saiu de Goiás, ecoou nos grandes centros e voltou à terra natal, onde encontra suas raízes e se dá a reconhecer, diminutiva em sua grandeza:

Minha estética,
todas as vibrações
de minha sensibilidade de mulher,
têm, aqui, suas raízes.
Eu sou a menina feia
da ponte da Lapa.
Eu sou Aninha.

Cora Coralina e Aninha. Menina feia. Poeta linda. Mãe. Jornalista. Doceira. Lavradora de versos, de gente e de chão. Muitas. Uma só. Mulher. Mulher. Mulher.

Links e Referências:

[1] CORALINA, Cora. “Minha infância (freudiana)”. Disponível em: https://goo.gl/FMEFqK

[2] Essa poeta, face pública de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas (que, aos 14 anos, se autodenomina Cora Coralina), nasceu na cidade de Goiás, em 20 de agosto de 1889 e faleceu em 10 de abril de 1985. Seu primeiro livro, Poemas dos Becos de Goiás e estórias mais, escrito ainda na juventude,  foi publicado apenas em 1965 pela Editora José Olympio.

[3] Poema “Assim eu vejo a vida”.

[4] Foi Carlos Drummond de Andrade quem, de certa forma, “apresentou” Cora Coralina ao grande público, referendando a qualidade de sua produção.

[5] A matryoshka é uma boneca da tradição russa. “Constitui-se de uma série de bonecas, feitas geralmente de madeira, colocadas umas dentro das outras, da maior (exterior) até a menor (a única que não é oca). A palavra provém do diminutivo do nome próprio Matriona.” (Wikipedia)

[6] Poema “Mãe”.

[7] Poema “Mulher da vida”.

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